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A energia vital

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.11

Nunca tinha visto o filme The Fontainhead, mas depois de tanto me falarem no livro de Ayn Rand, resolvi visualizá-lo na internet. O filme exerceu, desde logo, um terrível impacto sobre mim: aqueles actores! Gary Cooper e Patricia Neal, um dos pares mágicos do cinema! Todos os actores, aliás, se enquadram na perfeição no papel que lhes foi dado. E aquelas cenas bem encadeadas, aquelas lines fabulosas, aqueles cenários, aquela atmosfera!

 

King Vidor domina a linguagem do cinema, já não há planos assim, sequências assim, luz-sombra, aquela simplicidade elegante e animal ao mesmo tempo, a ligação visceral a todos os elementos, terra, pedra, pele, olhar, respiração. É esse o mundo em que o herói se move e que a heroína irá descobrir também e de que irá tentar fugir.

Mas a mensagem do filme irá agitar-nos para sempre: a possibilidade da autonomia no mundo da pressão da opinião pública, a liberdade do indivíduo e o condicionamento do grupo, a criação e a cópia, a vida e a simulação. É certo que Ayn Rand utiliza uma linguagem simples e brutal, como simples e brutal é a verdadeira inteligência e a perspicácia, despojadas de emoções ou sentimentos. Sim, aqui confrontamo-nos com uma inteligência brilhante, magnífica, arrebatadora. E quando isso acontece temos de nos distanciar um pouco para não nos deixarmos encantar e render.

Também já pensámos assim, o indivíduo e a sua vontade de viver e criar e o grupo e a sua mediocridade e domesticação, o indivíduo e a sua coragem, o grupo e a sua cobardia. Quantas vezes nos afastámos dos outros para conseguir respirar, simplesmente respirar? Quantas vezes procurámos o silêncio para conseguir ouvir o nosso próprio coração? Mas a verdade é que já encontrámos no meio da multidão um olhar amável, um sorriso luminoso, a cumplicidade breve e natural da nossa humanidade. E é isso que a autora não revela, compaixão pela fragilidade da existência, pelos momentos fugazes de empatia entre desconhecidos que se cruzam na multidão hostil. Deixamo-nos pois fascinar mas a uma distância segura.

 

Voltemos ao filme. Um arquitecto constrói a sua própria síntese e nesta síntese entram forma e função, a simplicidade, a utilização inovadora dos materiais, coragem provocadora, rasgos de génio. Ora, um arquitecto assim encontra obstáculos pela frente, os adversários naturais numa sociedade orientada para o conformismo e o consenso. Interessante a insistência na palavra consenso. A autora aqui é radical, não pode haver lugar a consensos e o herói prefere trabalhar como um simples operário do que ceder a pressões (e convenhamos, as condições propostas eram inadmissíveis).

 

Uma pedreira onde de vez em quando se ouvem explosões. É este o cenário do primeiro encontro dos dois. Ela, uma crítica de um jornal de grande circulação, sofisticada, fria, distante. Logo que vê aquele homem fica hipnotizada. Gostava de poder descrever esta cena de uma forma mais original, mas não consigo. Ela fixa-o, lá de cima, ele segura o olhar até ela se aperceber. O diálogo dos dois é simplesmente fascinante. Daí para a frente ela irá lutar entre o fascínio que este homem exerce sobre si e a vontade de lhe escapar. Todas as cenas e diálogos são autênticos duelos e, no entanto, o pensamento e sentimentos essenciais estão em perfeita sintonia, ambos se reconhecem um no outro. Dois espíritos autónomos. Ela, um espírito mais rebelde do que propriamente autónomo.

 

A arquitectura, metáfora magnífica de toda a criação, da transformação da natureza, de uma forma sempre nova de estar no mundo e de nele respirar e agir. Na arquitectura a obra ergue-se e permanece por muito tempo, orgulhosamente exposta, um marco, uma referência, uma influência. Em sociedades tradicionais e conformistas esta visibilidade liga-se essencialmente ao poder, tal como há milhares de anos todas as obras que se ergueram e permaneceram. Para o nosso herói a obra não é coisa morta, tem uma vida própria, uma consistência própria, vibra, serve um propósito, e tem muito dos neurónios e da emoção do autor. Esta perspectiva exerce um fascínio desde logo na mulher rebelde e nalguns espíritos raros, mas encontra oposição numa maioria conformista.

 

O filme está perfeito na linguagem do cinema, na atmosfera, na mensagem, nas personagens. Nunca vi tão bem descrita a energia vital de toda a criação, e de toda a vida afinal. O que nos move não é precisamente esse motor interno, esse impulso original, essa primeira curiosidade, caminhar com os nossos próprios meios? Que tipo de sociedades estamos a preparar com a massificação e o conformismo, esse movimento contrário a tudo o que é vivo e criativo?

Interessante este confronto indivíduo-grupo, autonomia-conformismo, criação-cópia, vida-poder. O nosso herói discursa de forma desapaixonada, como desapaixonado é o seu olhar sobre a opinião alheia. Simplesmente não pensa nisso. Essa é a dimensão da sua autonomia. E aqui a autora é radical. De uma radicalidade que nos assusta um pouco, como já disse ali atrás, como se lhe faltasse amabilidade e compaixão. É certo que a multidão, ávida de dramas humanos e de frivolidades, também não é amável nem compassiva. Tritura com a mesma indiferença os que constroem e os que destroem. Mas, por isso mesmo, precisamos de um contra-ponto, de uma bússula, a consciência humana. Nada pode ser assim descrito de forma tão dicotómica, há zonas cinzentas, há oásis no meio do deserto, há sementes a florir no meio do betão, há organização no meio do lixo.

 

Vou ainda voltar ao filme, mas preciso de me familiarizar com as personagens, as cenas e sobretudo os diálogos. Ainda estão demasiado frescos na minha memória. Vamos a ver se me inspiro...

 

As personagens representam características humanas aqui levadas ao extremo na sua limpidez: o autor independente, a crítica rebelde, o director ambicioso, o simulado perverso, o conformista cobarde, etc. Os seus actos são radicais, próprios de personagens-tipo, na vida real é tudo mais fluido e complexo.

Há também drama que baste, porque a inflexibilidade arrasta sempre consigo sofrimento sofrido e infligido, o que seria possível evitar se as pessoas (e as personagens) conseguissem abdicar do poder, da necessidade de deixar a sua marca nos outros e em si próprias. Magoar alguém é o resultado de se magoar a si próprio, mas quase ninguém se apercebe.

Confesso que os dramas baseados nesta vã e desinteressante busca do poder não me seduzem mesmo nada. E as nossas personagens são paradoxais embora não o pareçam: o nosso herói quer deixar uma marca histórica do seu génio, a mulher chega a propor-lhe desistir de uma luta inglória só por ela, o magnata escolhe sair de cena por sua iniciativa depois de garantida a obra da sua vida. Tudo isto contradiz a verdadeira autonomia que não procura o reconhecimento de um público. A verdadeira autonomia basta-se a si própria.

 

Embora todo o drama funcione muito bem em cinema: um triângulo estranho se forma à volta de uma casa de campo, uma atracção adiada por um casamento, um acto destrutivo a meio da noite, um julgamento, o arranha-céus a tocar as nuvens.

Confesso que nunca entendi este fascínio por arranha-céus. É um impulso humano primário que vem desde os megalitos, as pirâmides, os monumentos em altura, as catedrais. E os americanos nunca dispensam as alturas e os precipícios em cinema, vem desde o mudo.

Este final do filme soou-me a um contraponto sem chama para todo um percurso desafiador. Aí vai a mulher até aos céus onde o homem a espera em pose de vencedor. Lembrou-me o King-kong original, do filme dos anos 30. Também o homem pré-histórico terá um dia abotoado aquela pose de vencedor com a presa aos seus pés?

E aqui uma contradição minha: sempre adorei as montanhas em cinema, a subida pelos rochedos íngremes e ásperos, a luz-sombra das pedras, ou a luminosidade da neve. Árvores que se elevam vertiginosamente também me fascinam em cinema. Deveria gostar de arranha-céus mas não, não me interessam mesmo nada. 

 

Voltando ao final com o nosso herói em pose de vencedor, orgulhosamente só, perto das nuvens... Não é o final que eu esperava, mas é o final lógico na lógica do filme.

Só se vence na própria consciência, os medos, o orgulho, as dependências, os jogos de poder, a manipulação. É na consciência de cada um que tudo se passa. É esse o verdadeiro teatro da vida, o confronto entre as várias tendências humanas. De resto, a maioria dos actos e palavras são distraídos e irreflectidos, a tal opinião pública facilmente manipulada que o filme retrata tão bem.

Mas esta fórmula autonomia-conformismo ainda não está compreendida e resolvida. No filme todos procuram o poder embora não pareça. Há, no entanto, aquela parte do discurso do nosso herói, em que refere a troca de serviços livre e baseada na competência de cada um. Aí a autora aproximou-se da possibilidade de uma sociedade organizada na base da autonomia e não da servidão.   

Hoje como nunca este tema é actual, basta olhar em volta, tudo é estudos de mercado, formação de opinião, as sondagens, a massificação levada ao extremo. E no entanto... nunca como hoje a possibilidade de ter acesso à concretização de sonhos antes inacessíveis, pela informação, tecnologia e ferramentas.

E isto também no cinema, nunca tivemos tantos meios, comparando com a década de 40, e tão pouco entusiasmo. Onde está essa magia perdida de estar a desbravar terreno, a desenvolver uma nova linguagem?

 

 

Muitos dias depois: À distância temporal, o diálogo que mais me incomodou neste filme nem foi o diálogo constrangedor entre a mulher rebelde e o namorado da altura, um arquitecto ambicioso mas medíocre e conformista, em casa do director do jornal onde ela tarbalha e que os convidara. Podia ser, pois tem todos os ingredientes de uma situação verdadeiramente decadente: confrontado entre a carreira promissora de arquitecto, aquele homem conformista escolhe a carreira à namorada. Assim, sem mais nem menos. Dirige-se à mulher nestes termos, mais coisa menos coisa: Se achas bem, por mim tudo bem também. Sem qualquer vestígio de conflito interno nem dor da despedida. E sai de cena, como se nada de decisivo ou fundamental tivesse acontecido na sua vida a partir daquela escolha.

Não, o diálogo que me incomodou ainda mais do que este, foi o diálogo entre este arquitecto, ambicioso, medíocre e conformista, e o nosso herói. Já entalado entre o sucesso de uma carreira construída sobre a capacidade de compromissos sucessivos e a incapacidade técnica e criativa de resolver um projecto que exigia inovação e ousadia, pede ao nosso herói que o ajude. Este coloca-o perante a promessa de exigir que o projecto seja respeitado na íntegra, que não lhe façam qualquer alteração. O colega aceita. Mas aqui o que me incomodou foi o discurso do nosso herói que traduz, a meu ver, a ideia fundamental da autora: A diferença entre nós é que tu fazes uma obra a pensar nas pessoas que a vão utilizar, habitar. Eu penso apenas na obra, na obra em si! A obra de um criador é a sua fonte de inspiração, a razão do seu empenho!

Isto é assustador e perigoso. Porque se trata de um pensamento sedutor e arrebatador, que pode levar a terríveis equívocos. A obra em si, o valor supremo, e tudo se lhe deve submeter! A alternativa é a mediocridade e o conformismo das massas.

A escolha não está entre estas duas variáveis, entre o criador inteligente e superior e as massas ignorantes e medíocres. A escolha está precisamente na consciência individual, de cada um, é aí que se passa o verdadeiro teatro da vida e das escolhas fundamentais. A consciência como o espaço-tempo da observação e da reflexão. Em que se pode escolher entre a autonomia e o conformismo. Mas em que a obra, uma qualquer obra, não vale por si só, não é o valor supremo. O valor supremo é a vida, a vida real, frágil, palpitante.

Os nossos heróis são demasiado orgulhosos para o entender, também à sua maneira confundem coragem com linguagem do poder, com a lógica da morte e do vazio. No seu mundo, no espaço onde se sentem vivos, perto das nuvens, há uma distância entre si e o mundo das massas, conveniente e intransponível. Uma consciência assim formada só cria fracturas, a pensar que cria obras-primas, intemporais, como as que ainda vemos sobreviver a séculos de civilizações perdidas. Já não vemos vestígios dos seus habitantes ou da sua forma de vida, mas vemos vestígios da organização do poder: pirâmides, torres, sarcófagos.

A obra vale pela sua utilidade e funcionalidade em relação à vida, à consciência viva, a meu ver. Traduz um certo tempo-espaço, provoca, desmonta, anima, agita, não lhe somos indiferentes. Mas não vale por si mesma. O seu valor está no nosso olhar, na nossa consciência. Na própria vida.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:25

 

The Shop Around the Corner de Lubitsch, onde se inspirou You've Got Mail: o mais fantástico destas duas versões é que o original é muito mais verosímil e realista, logo, o seu impacto é muito maior! The Shop Around the Corner... Vi-o uma única vez, no final dos anos 90, e de tal forma me perturbou (e irritou) que registei o efeito num brevíssimo texto. Foi assim que o vi na altura, pelo lado da habilidade, da ambição e da simulação, como forma de organização social:

 

Ontem, no filme de Lubitsch, comoveu-me a figura tristemente solitária e patética do velho patrão; o empregado simples e obediente mas que não abandona os amigos; e a empregada que procura sobreviver com autenticidade num mundo hostil.

Já as outras personagens me são antipáticas, mesmo e sobretudo o empregado que no início parece fiel a certos princípios mas que no fundo é ambicioso e simulador. Esta traição ainda me chocou mais do que o pretensioso e caricato gigolô ou mesmo o moço de recados oportunista e sem carácter.

É que estas personagens sorridentes e simpáticas, em quem se confia, são as mais perigosas, porque simulam muito melhor e enganam facilmente. As outras acabam por mostrar o jogo, são demasiado transparentes, mas estas... O seu poder sedutor leva sempre a melhor, como acaba por acontecer. Profissionalmente e pessoalmente, conquistam e ganham.

 

O mais interessante é verificar como a sociedade actual reverencia esta postura (habilidade, ambição, simulação) de modo acrítico, indo ao ponto até de a promover e reforçar como aptidões sociais. Vai uma apostinha que o Jimmy Stewart é visto pela maioria como o herói da fita? (Não digo protagonista, digo o herói, o modelo a seguir.)

Bem, mesmo que consideremos este comportamento social (nos níveis pessoal e profissional) como uma saudável adaptação à selva urbana, um saudável instinto de sobrevivência, a questão que aqui coloquei, de forma marota, é apenas destacar o facto deste comportamento adaptativo ser, não apenas aceite, mas promovido socialmente.

 

Como Lubitsch consegue colocar em linguagem do cinema a ideia, no ritmo, nas cenas, nas personagens, na ausência de qualquer mensagem moralista, é de génio! Aqui é apenas observável a natureza humana em acção.

 

 

 

 

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publicado às 17:06

"I know things about people, Lilly..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.08.08

 

Esta é, para mim, a frase mais sedutora dos filmes que vi. Clint Eastwood já entradote, em herói solitário e desencantado, a tentar recuperar o tempo perdido, "I've got to come back", porque falhou da primeira vez... Na Linha de Fogo, pois.

Podem questionar-me: o quê? Clint Eastwood, e já entradote, o mais sedutor? Então, e Clark Gable, Gary Cooper, William Holden, Burt Lancaster, Paul Newman, George Clooney? Tudo bem, todos eles! E tantos outros! Mas... I know things about people, Lilly... na voz de um herói já fora de prazo, é a sedução perfeita, porque não é apenas um jogo que se joga por jogar, é a sério!, tem consistência, é uma cumplicidade de iguais, uma cumplicidade brincalhona e inteligente, parecida com a lealdade e a confiança, como se formassem uma equipa.

 

Amanhã continuo a minha defesa da sedução neste filme e por este filme...

 

O que me seduziu n' A Linha de Fogo, pois. A qualidade dos diálogos. Já não há diálogos assim. Só os vemos nos filmes dos anos 30, 40, 50. Também a fotografia, belíssima. E a música que nos embala, Ennio Morricone...

O tema do filme nem é muito interessante: um agente obcecado por ter falhado na protecção do Presidente Kennedy e que insiste em se manter no activo apesar da idade. Todos ali o querem ver pelas costas porque o consideram um obsessivo, com demasiadas exigências para apertar a segurança e reduzir os riscos. Isto em ano de eleições, dizem-lhe, não vem nada a calhar. Mas o nosso herói lá consegue ser destacado para a segurança do Presidente e, caso seja necessário, ainda irá apanhar com a bala mortal.

 

Esta é a minha personagem preferida de Clint Eastwood. Aqui acompanhado na perfeição por Rene Russo, a Lilly, no seu papel também. O encontro dos dois, magnífico! Deles podíamos dizer: e tudo começou de uma forma provocadora e sedutora. Sim, terrivelmente sedutora. I know things about people, Lilly...

Mais tarde Lilly perguntar-lhe-á: "Porque está sempre a namoriscar comigo?"

(Ah, porquê? Nós vemos perfeitamente porquê.)

"Se ela olhar para trás, é porque está interessada."  ...

E ela olhou.

Será assim até ao final do filme. A construção de uma amizade leal e de uma cumplicidade sedutora. Ao som do jazz.

Apesar das muitas peripécias, com os telefonemas de um psicopata pelo meio, e todos a afastá-lo das funções, Lilly irá defendê-lo até ao fim. E é um herói muito pouco convencional que lhe perguntará no avião: "E o que aconteceria se eu desistisse do meu trabalho por si?"

Ah, a cena final, ao som de Ennio Morricone, aquela claridade, tudo nos deixa sem palavras... a não ser, as de Clint Eastwood: I know things about pigeons, Lilly...

(Sim, isso mesmo. A conversa tranquila, lado a lado, desta vez é mesmo sobre pombos.)

 

 

 

Obs.: Podia ter escolhido o Clint Eastwood-realizador, onde é visível o seu enorme talento e o seu amor ao Cinema, mas não é esse o meu Clint Eastwood. O meu Clint Eastwood é o que largou o cavalo e as planícies do oeste e entrou na cidade, num carro-banheira dos anos 70. O Clint Eastwood já entradote, o herói solitário e romântico, independente até à medula, nada convencional, que pensa pela própria cabeça (o que lhe trará sempre problemas), e que gosta de jazz. Mesmo que esses filmes não sejam filmes maiores, como os seus, as suas personagens são sempre fabulosas.

 

 

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publicado às 15:45

E Hitchcock sempre a piscar-nos o olho...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.04.08

Rear Window.Só muito recentemente vi este filme de Hitchcock, o que para mim é um verdadeiro mistério! Já tinha visto praticamente todos os seus filmes… e logo este, tão famoso, com a Grace Kelly e tudo!, como era possível?

Da mesma forma que veio atrasado na minha vida, Rear Window surgiu-me entretanto várias vezes seguidas, talvez para compensar… E sempre que o revejo descubro novos pormenores em que não tinha reparado. Partes de diálogos, olhares furtivos, malícia, manipulação…

Hitchcock é um caso à parte no cinema. É o que eu sinto ao ver qualquer um dos seus filmes, sobretudo após a sua primeira fase dos anos 30, 40. A sua visão da sociedade e das pessoas, dos relacionamentos amorosos, por exemplo, está toda nos seus filmes. Às vezes de forma muito sub-reptícia. E o seu terrível sentido de humor também lá está.

As suas heroínas nunca são vulgares, ou sequer comuns, mesmo que o seu comportamento deixe muito a desejar. E os homens fingem deixar-se dominar por elas, pela sua incrível sedução, o que é terrivelmente sexy. Suspeito que, no fundo, ambos se manterão livres de qualquer domínio, eles e elas.

Excepto em Rear Window. Aqui não são apenas as circunstâncias que vão dar uma ajudinha à Grace Kelly na arte de dominar o homem que adora (à sua maneira). É sobretudo a terrível curiosidade humana, o tal voyeurismo que Hitchcock acredita fazer parte de qualquer humano que se preze.

No final o homem é domesticado, por muito cruouchocante que isto possa parecer (mas há prisões douradas e sedutoras que muitos aceitam alegremente. E porque não? O nosso herói já está a entrar na meia idade não tarda, e andar com a maquinaria às costas por locais inóspitos pode tornar-se a pouco e pouco menos convidativo…)

E pelo meio há um crime que o nosso par irá desvendar, com risco de vida e tudo! Risco que, para Hitchcock, também é terrivelmente sexy.

 

Nota: Este é o único filme com Grace Kelly aqui a navegar e o meu preferido dela. A personagem mais conseguida, diria mesmo, perfeita, na sedução irresistível, na sensualidade contida, na curiosidade irreflectida, na determinação em conquistar e domesticar o solteirão emperdernido. Jimmy Stewart não tem qualquer hipótese, será a mosca na teia de aranha. Mas como disse ali atrás, há "prisões douradas".

Também aqui, a navegar...

 

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publicado às 16:11

D. Juan de Marco

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.02.08

Marlon Brando, um psiquiatra em fim de carreira, um pouco murcho e desencantado, é chamado de urgência para dissuadir um jovem de saltar do telhado de um prédio. Elevador exterior, lá sobe até ao jovem e vê que se trata de D. Juan, nem mais nem menos. Resolve entrar na história e assumir a pele de um nobre espanhol, convencendo-o a descer.

Já no hospital psiquiátrico, este D. Juan, que veste a fatiota e fala de uma forma poética e romanesca, conta o seu passado. Uma história digna de um romance de aventuras, com amores e paixões, duelos e mortes trágicas! Mas o que mais perturba o psiquiatra e que o leva a querer acompanhar o jovem até ao fim é a forma como D. Juan fala do amor e das mulheres.

Entretanto o nosso D. Juan vai mudando a vida de alguns naquele hospital. E o nosso psiquiatra não será excepção, ao ser confrontado com o seu próprio deserto e desencanto. Magnífica troca de papéis…

Os primeiros efeitos começam a notar-se. Pequenos gestos que começam a dar uma nova cor à sua vida. Convidar a mulher para um jantar romântico, surpreendê-la de forma teatral, com música e tudo! A cumplicidade e o riso, as conversas brincalhonas e metafóricas, a paixão como a chama que renasce, o motor de tudo, afinal! Perguntar-lhe-á no jardim quais os seus sonhos. Ela, que sempre viveu em função dos sonhos dele… fica confusa no início, depois comove-se.

Mas há um prazo, ditado pela direcção, para o tratamento. Exigem ao psiquiatra o início da medicação, é tempo do jovem descer à terra.

Magníficas cenas finais, com D. Juan a ser avaliado pelos serviços que decidirão sobre o seu destino, internamento ou liberdade.

E uma praia paradisíaca em que o jovem encontra a sua amada. Aquela das suas histórias, a única entre mil. Acompanhado ao longe pelo casal em nova lua-de-mel que pode ser para sempre. Porque não?

 

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publicado às 15:30


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